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Fui para a rede chorar um pouco. Eu tirei a rede do pai e da mãe e troquei por mais duas galinhas há três semanas. Sei que daqui a pouco vou ter que matar as galinhas para a nossa alimentação. Não sei fazer esses animais se multiplicarem, tampouco fazer um plantio de mandioca ou de milho se transformar em uma fonte de renda para a gente. Sou uma menina ainda, não sou adulta!

Muitas responsabilidades foram colocadas em minhas costas antes mesmo de eu ser mulher! Será que ninguém pode me ajudar? Não é necessário ajuda financeira, apenas dar instruções de como pode ser feito…

Há um homem na cidade que é muito inteligente. Sempre que vou trocar leite por feijão, vou até a venda dele. É o único que aceita esse tipo de troca. Outro dia eu pedi a orientação dele. Ele me olhou de cima a baixo e disse umas coisas que não entendi. Só sei que não gostei do seu olhar, achei muito esquisito. Meu pai nunca me olhou daquela forma…

Os anos foram se passando e nossa vida sempre na mesma, ou melhor, piorando cada vez mais.

Eu não poderia deixar a minha irmã passar fome, mas naquele lugar a gente iria morrer. Resolvi, então, fazer uma tentativa. Era a única saída, não tinha outro jeito. Fui até o nosso vizinho, aquele que ajudou a tirar meu pai morto da árvore. Pedi que ficasse cuidando da Márcia, pois eu iria para outro estado tentar a vida. Do jeito que estávamos, não teríamos nenhuma chance de sobrevivência. Essa era a única luz que eu via no fim do túnel. Prometi que enviaria dinheiro para ajudar nas despesas dela. Eu me sentia mais segura deixando-a com uma família. Arrumamos suas coisinhas, tinha pouquíssima roupa e apenas um par de sandálias. Coloquei em duas sacolas e levei-a para casa da Zefa. Meu coração apertou tanto que não contive as lágrimas. Sofri muito ao deixá-la, mas tinha que ser assim.

Pedi ao Seu Dito para vender a casa, mas não tinha documentação nenhuma. Lá, naquele fim de mundo, a gente conversava e fazia negócios à base de palavras. Nossa palavra tinha muito poder e confiança. O dinheiro que ele conseguia era para suprir as despesas da Márcia. Minhas coisas deram apenas em uma sacola. Prendi meu cabelo com um elástico e fui para a estrada, a fim de pegar uma carona. Levou mais ou menos duas horas para passar um caminhão. Fiquei esperando naquele sol ardente que comia a nossa pele. Enfim, a carona chegou.

Um senhor parou e entrei em seu caminhão vermelho, enferrujado, todo coberto de terra e tão quente que mal dava para respirar. Ele era muito simpático, lembrava meu pai… Tenho saudades de meus pais. Eles fazem muita falta. Cheguei à cidade grande. Era grande mesmo.

Pessoas lindas circulando pelas ruas. Havia carros por todo lado. Fiquei um tanto assustada. Não tinha muito dinheiro, apenas duzentos reais para arrumar um lugar para passar a noite e conseguir um emprego. O senhor do caminhão me disse que conhecia um albergue que aceitava meninas, era barato e eu poderia passar a noite lá.

Ele me deixou na porta. Era um lugar feio, todo sujo. Pessoas estranhas passavam por ali, diferentemente do centro da cidade. Tive sorte, havia um quarto vago. A mulher da recepção primeiro quis o pagamento da diária, para depois me deixar entrar. Coloquei a minha sacola dentro de um guarda-roupa de duas portas todo descascado.

A cama era pequena, o colchão duro, porém, não fazia diferença para quem dormia em rede. As paredes eram beges, tinha bolor, toda descascada, não valia o preço que pediam na diária, mas era tudo o que eu tinha. Viajei o dia todo e quando cheguei já era noite; queria descansar um pouco. Naquela noite, antes de desmaiar de tanto sono, chorei… estava me sentindo sozinha e com medo daquela cidade imensa.

Capítulo 4

Méuri Luiza

Colaborou: Meuri Luiza

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  • Ana Clara Neves

    Ai tomara que dê tudo certo!! 😀

  • Jéssica Karine Gama (FJ ITAPEVI)

    EBA !!!
    AMANHA PROXIMO POST MENINAS..RSRS

  • Aline Borges

    chega rapido terça-feira rsrsrs

  • daiane

    Essa história ta muito interessante!
    Estou curiosa pra ver o proximo capitulo *_*

  • Kezia

    Meu Deus o que acontecerá com essa criança? Nesta nova história, mais uma vez a senhora consegue nos trazer um exemplo do mundo. Infelizmente essas coisas acontecem e essas tristes história, acontecem com muitas meninas em nosso país.

  • lia di karla

    tô mtmt curiosa, i agoraa?? oq será q vcai acontecer?? 🙂

  • Elizabetty Moraes

    Essa história cada vez fica mais forte, estou esperando anciosamente o próximo capítulo…

  • Jéssica Karine Gama (Itapevi)

    Dona Meuri !!!
    Muiats mulheres tiveram um vida assim sofrida desde a infancia,e acabaram que indo pelo caminho ruim,caindo na prostotução pelo fato de não ter onde morar e o que comer na cidade grande,e as pessoas ñão derem oportunidade.Mas Espero que essa historia seja de superação,que ela venha crescer muito na cidade grande,que venha continuar tendo essa força,determinação e acima de tudo,esse coração puro que não tinha maldade enquanto ela estava lá naquele fim de mundo e que volte pra buscar a irmã e que continue sendo um exemplo pra irmã,que ela venha arrebentar,ser uma benção e que esse vizinho q esta com irmã dela que ele venha olhar ela como uma filha e cuidar com muito respeito e amor .

    😀

    Bom essa é a minha expectativa,vamos ver no que vai dar,ansiosa para o proximo capitulo..hehehe

    Obrigada Dona Meuri ,Deus abençoe sempre.