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Em uma manhã, eu fui pegar algumas mandiocas para cozinhar e comer e vi alguma coisa pendurada na árvore. Minha irmã estava dormindo. Eu cheguei perto e quase desmaiei. Minhas pernas estremeceram, meu coração disparou e as lágrimas caíram sem parar dos meus olhos. Meu choro foi tanto que cheguei a soluçar. Vi meu pai com uma corda no pescoço. Seus braços estavam soltos, a língua para fora, os olhos muito abertos olhando para mim e seu rosto muito roxo. Ele se enforcou com uma corda que tínhamos para amarrar os barris. Nunca mais vou me esquecer dessa cena. Não queria que minha irmã visse, mas não consegui evitar. Ela acordou e veio atrás de mim. Quando percebi, a pequena Marcinha estava ajoelhada no chão de terra vermelha com as mãos na boca. Eu me lembro como se fosse hoje, pegamos o carro de boi e fomos até nosso vizinho. Contamos o acontecido, e ele, juntamente com seus dois filhos, foram até a árvore.

Tiraram o pai de lá e o enterraram ao lado da nossa mãe. Fizeram mais uma cruz. Agora, ela não estava torta.

Meu pai não conseguiu ser forte, ele se matou. Ouvi dizer que quem se mata vai para o inferno. Então, ele deve estar lá.

Enfim, ficamos sozinhas, eu e minha irmã em um sertão sem fim. Aprendemos a pegar água do riacho… Claro que trazíamos muito menos água do que meu pai, a gente quase não tinha forças… Nós paramos de brincar no galinheiro com as galinhas e nem fazíamos mais bonecas de espigas de milho. O nosso tempo era remido.

Eu tinha que sustentar a casa agora. Eu, simplesmente eu, uma menina com 15 anos de idade, tinha que sustentar a irmã com 13. Por isso, virei a sua mãe, a sua protetora, a sua vida. Ela se baseava em mim para tudo. Eu não poderia jamais deixá-la de lado. Tive uma filha sem ficar grávida.

O tempo foi passando e a vida ficou muito dura para nós. Acordávamos ainda de noite para buscar leite na casa vizinha. O pai de família chamado Seu Dito – era Benedito, mas todo mundo o conhecia por Dito – era casado com a Zefa – acho que o nome todo era Josefa, não sei bem, eu não tinha tempo nem para conversar mais e saber da vida das pessoas.

Ele dava todo dia um litro de leite tirado diretamente da vaca para nós, mas tinha uma condição: a gente tinha que ir lá buscar. Ele nem se importava se éramos pequenas; se a gente não fosse lá, não tinha leite. Não sei se minha mãe agiria assim com um vizinho que não tem pai e mãe…

Nós não tínhamos geladeira, então o leite teria que ser consumido no dia, senão talhava.

Eu não tinha dinheiro para comprar açúcar, por isso o leite era aferventado em uma vasilha de alumínio e a gente bebia sem nada, apenas o leite e a espuma. Com o tempo, a gente se acostuma e nem sente a falta do doce no leite.

A mandioca era plantada na frente de casa. Eu aprendi com meu pai a puxar a raiz e também cortar os talos para colocá-los novamente na terra. Tenho aproveitado o plantio que meu falecido pai deixou.

As galinhas eu também aproveito. Vou todos os dias ver se há ovos para comer. Uso lenha no fogão para fazer a comida. Tudo é assado, porque quase não se tem água, e quando tem é para beber. O calor aqui é insuportável, se a gente não fizer tudo antes das 10 horas da manhã, o sol queima o coco da nossa cabeça.

Para mim, tudo está muito difícil! Não estou dando conta de fazer tudo o que devo fazer. Tenho muito medo de ficar sem comida para a minha irmã. Estamos com seis galinhas e um galo, nove pés de mandioca e sete de milho. Tenho que alimentar o boi, que sempre nos leva para a cidade para comprar feijão. Eu troco, às vezes, o leite por meio quilo de feijão. Como não tenho dinheiro, tento trocar por algo.

 

A minha mãe lavava a roupa no riacho e a trazia em um balde que colocava em cima da cabeça. Ela tinha tanta agilidade, que podia até correr e não deixava a roupa cair. Eu bem que tentei fazer isso, mas é muito pesado, então, levo a roupa de pouco em pouco até o riacho para lavar. Muitas vezes prefiro ficar com as roupas sujas…

 

– Antônia, o que vai acontecer com a gente?

– Eu não sei, mas não vou deixar você passar fome, isso pode ter certeza!

Capítulo 3

Méuri Luiza

Colaborou: Meuri Luiza

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  • judy

    yo creo que cuando una persona queda sola en esta vida y no tiene nadie de quien depender es cuando ella se esmera a lo maximo para salir adelante porque no depende de nadie mas sino ella

  • Ana Clara Neves

    Ai ficou mais triste ainda… Tadinhas das irmãs!!
    Que coisa horrível o pai dela ter sido fraco, coitado…. como ele podê fazer isso… e mais uma vez penso nas tantas pessoas,
    nos tantos pais de família que não suportam e se matam… é a coisa mais horrivel e cruel que há no mundo… esses dias um homem se jogou do predio perto de onde eu trabalho… por causa das dívidas…. isso é muito triste!!
    Vamos para o Terceiro Capítulo!!
    A senhora escreve muuito bem Dona Meuri!!
    Eu tbm gosto de escrever histórias!!
    Qual é email da senhora? Gostaria de lhe enviar alguma legal que eu escrever…
    Beiijo

  • Aline Borges

    Nossa sou fã das suas historias…
    A sua maneira de conta-la, faz com que eu me sinta uma de suas personagens, eh como se eu estivesse ali dentro das historias. Um grande abraço e estarei aguardando anciosamente pelos proximos capitulos.

  • Kezia

    Poxa dona Meuri, essa história é linda.
    Li esses dois primeiros capítulos e já estou amando.Parabéns.

    Kezia Dias Gois – Fortaleza, Ceará

  • Jéssica Karine Gama (Itapevi )

    Ta sendo uma lição de vida mesmo essa historia,a menina tão pequena mas tão cuidadosa,amiga da irmã,trabalhadora,poxa muito forte;faz lembrar um pouco a vida que a minha vó levava na infancia.

    Bjoos e obrigada por estar nos prestigiando com essas historias tão edificantes!!

    Na fé.!!!

    • Meuri

      Jéssica, é o amor pela irmã, que faz a Antonia suportar tudo…

  • Pat...

    Comecei a ler essa história e já percebi que é uma grande lição de vida! Mostra bem o quantos as dificuldades que passamos nos traz grande oportunidade de crescimento.E que linda essa moça Antonia,pois ela literamente fez do limao uma limonada!

  • Pati

    Comecei a ler essa história e já vi que é uma grande lição! Já percebi o quanto as dificuldades que passamos nos acrescentam valores que é pra toda vida.E que linda essa Antonia,pois ela está fazendo do limão uma limonada!

  • iana-ac

    Muito linda essa historia, e triste por saber que à muitas pessoas passando por isso ai fora, e pessoas que tem tudo e nao dao valor ao que tem.
    Mãe e Pai é a nossa fortaleza.

  • Aliandria

    EU SEI QUE É UMA HISTORIA FICTICIA MAIS CONFESSO QUE FIQUEI EMOCIONADA AO LER ESTE CAPITULO PORQUE ESTA E A REALIDADE DE MUITAS CRIANÇAS POR AI….E MUITAS VEZES FICAMOS RECLAMANDO DA VIDA POR ESTAR COM UMA SIMPLES DOR DE CABEÇA E NOS ESQUECEMOS DE MUITAS COISAS ASSIM COMO ESTA HISTORIA..FIQUEI EMOCIONADA PORQUE EU TBM SOU UMA PESSOA QUE FICA RECLAMANDO POR POUCA COISA…

  • Jamille

    Mais uma bela história com forte lição de vida..

  • Elizabetty Moraes

    Muiito forte, fico imaginando, eu tenho tudo comida,as roupas que eu quero, amiigos, parentes e uma família enorme e ainda assim as vezes reclamo, meu deus essas duas meninas ñ tinham ninguém,e elas nem reclamam, enquanto eu que sempre tenho tudo que quero e ainda reclamo, éh vamos pensar como temos agido!!!

  • Karen

    D.Méuri , eu amo ler essas historias da senhora, não vejo a hora de chegar terça para ler mais um capitulo. Deus abençoe muito a senhora e o Pr. Hemerson !!!

  • Rayane Dantas

    Esta ficando,cada vez mais interessante, ! Como pode , uma criança cuidando de outra criança! Mais vem, mais coisas , para acontecer de bom!! Deus te abençoe Dnª Meuri!

  • Polliane Cardoso - Planaltina I

    D. Meuri,
    Essa historia é muito forte, estou anciosa pra ler o capítulo da semana que vem.
    Abraços.

  • vanessa

    E d. MEURI E TEM GENTE COM PAI E MAE VIVO E MUITA COMIDA E RECLAMA DA VIDA, E TAMBÉM PARA APRENDERMOS A DAR VALOR AO SENHOR JESUS QUE DEU A VIDA POR NÓS, LINDAS HISTÓRIA

    BJS VANESSA HONDURAS